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Tempos Difíceis

“Nada é eterno. Tudo está desmoronando.”

– Chuck Palahniuk, Clube da Luta (1996)

“Se você tivesse que escolher um momento na história para nascer e não soubesse de antemão quem você seria — não soubesse se iria nascer em uma família rica ou em uma família pobre, em que país nasceria, se seria homem ou mulher —, se tivesse que escolher cegamente o momento em que gostaria de nascer, você escolheria agora.”

– Barack Obama¹, 2016

Durante muito tempo invejei meu pai que tinha 21 anos em 1968. Não há mais razão para isso. Porque estou testemunhando uma transformação bem maior do que aquela que marcou aquela década colorida que acabou cinza e triste. As crises que se entrelaçam hoje – sociais, econômicas, ambientais etc. – comprovam a ocorrência de uma grande mudança em todo o mundo. Não dá para dizer para onde vamos nem quanto tempo essa jornada vai durar. É impossível prever se a mudança será para melhor ou pior. O que não podemos negar, definitivamente, são a velocidade e o tamanho da transformação.

O físico Stephen Hawking disse que este será o século da complexidade. O nosso grande desafio é aprender a decifrá-la. A alternativa, segundo muita gente boa², é a extinção. Ainda que você ache isso um exagero, consegue fingir que está tudo normal? 

A natureza está cada vez mais raivosa. Vingativa? Desastres naturais estão ficando mais frequentes e destrutivos. Pragas e pestes desafiam nossos controles e nossas capacidades. Você pode insistir, jogando contra todas as evidências, que nós humanos não temos culpa nenhuma neste cartório. Mas consegue esconder os vírus, bactérias, furacões, incêndios,  enchentes etc? 

A economia está desumana. Três bilionários têm mais riqueza que dezenas de países juntos. Uma pequena penca de famílias faz mais grana especulando do que milhões de pessoas trabalhando. Você não precisa virar um comunista para reconhecer que há algo podre no reino capitalista/financista/neoliberal: ele não sabe distribuir riqueza; ele não sabe criar sem deixar um rastro fedido de lixo e outras externalidades. Em que momento pareceu verdadeira a ideia de que só haveria um modelo econômico certo? Você acredita mesmo nesse papo de que não existem alternativas viáveis? E, se for o caso, o que nos impede de experimentar novas propostas? 

A sociedade está dividida. “Não há sociedade”, disse a musa de um dos lados da divisão³. É simplista e equivocada a metáfora Fla X Flu. Porque o debate não é binário. O perde-e-ganha pode ser conveniente em época de eleição ou em um estádio. Mas os times não existem assim, tão nítidos, no dia a dia. Há mais pautas em jogo. Aliás, precisa ser um jogo? Ainda que a gente aceite que a competição é natural, não estamos exagerando? E se a gente desanuviar e descobrir que aquele bloco de concreto logo ali na frente não é o pódio e sim uma lápide? 

Temos tempos difíceis pela frente. E vai ficar cada vez mais vergonhoso pretender que não temos nada a ver com isso e, pior, nada a fazer. Não há bolha que resista a tamanha ebulição. Muitos vão usar o medo como motivação e alicerce para suas velhas novas propostas. A gente já experimentou isso e os resultados não foram nada bons. O medo é mau conselheiro e um sentimento muito primário. Todo bicho tem. A gente pode fazer melhor. Porque, ao menos em teoria, estamos melhor equipados. Ainda não descobrimos, em parte alguma do universo, sistema mais complexo que o nosso cérebro. Se existem boas respostas e soluções para esses tempos difíceis, elas serão construídas aqui, em nossas cabeças. Está na hora de prepará-las para esse novo mundo que está nascendo.


Notas

  1. Esse desafio do Obama foi proposto anteriormente por vários pensadores. É conhecido como o Véu da Ignorância. Destaca-se a versão de John Rawls, de 1971. <https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A9u_da_ignor%C3%A2ncia>
    Link recuperado em 17/03/2020.
  2. Vários serão citados neste trabalho. Por enquanto, para não deixar aquela afirmação em aberto, seguem duas referências: A Sexta Extinção: Uma História não Natural, de Elizabeth Kolbert (Intrínseca, 2015); A Terra Inabitável: Uma História do Futuro, de David Wallace-Wells (Cia. das Letras, 2019).
  3.  Margaret Thatcher, ex-primeira ministra do Reino Unido.
  4. Foto de Robert Metz via Unsplash

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